Tempestuosamente

Ploc, ploc, ploc.

Pisava no chão molhado com vontade, apressada. Se piorasse, não ficaria nada bonito.

Ploc, ploc, ploc, ploc.

Apressou-se. Faltavam tantos quarteirões. E ainda teria que passar por aquela enorme avenida sem árvores ou toldos que lhe cobrissem.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Começava a ofegar levemente. Tirou os óculos, para não molhá-los, e assim parou de enxergar. Colocou o capuz na cabeça, mas isso não pareceu melhorar em nada os pensamentos que zuniam em seu cérebro, como se ele fosse uma colmeia. As gotas de chuva escorriam-lhe pelo rosto como lágrimas.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

E se tudo, afinal, desse errado? E se suas escolhas e fossem erradas? E se virasse a esquina errada na hora errada? Tinha tanto medo de errar o caminho em meio aquele aguaceiro… Decisões eram o pior que poderia ser forçada a fazer. Essa decisão implicaria em tudo na sua vida. O que estava fazendo agora era como um guia: tinha que saber interpretá-lo.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Mas que droga! Antes faltava tanto tempo, e agora já pareço tão perto, pensou. Chegou na grande avenida e agora tinha que ter o máximo de atenção para com onde estava indo. Começou a desacelerar e olhar ao redor, apertando os olhos (esse ato lhe apertava também o coração). Precisava decidir logo.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Afinal de contas, o que mesmo estava em jogo? Sua felicidade ou a dos outros? Seja lá o que seus amigos pensassem, ou sua família pensasse, o que importava era ela. Tão facilmente influenciada, não sabia mais o que queria. Seu misto de sentimentos a doía. Mas, por que não, simplesmente deixar acontecer?

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Porque quem faria o seu futuro seria ela mesma. Se fosse para chegar ao topo ou ao fundo, não importava onde virasse, no fim chegaria lá. Ela e somente ela tem o poder. Então, porque ligava tanto?

Ploc, ploc, ploc, ploc.

Estava caminhando bem devagar agora. Abaixara o capuz (o cabelo? Que molhasse!). Colocou os óculos, que logo pareciam precisar de um pára-brisas. Mas nem se importou. Pela primeira vez em muito tempo enxergava maravilhosamente bem.

Ploc, ploc, ploc.

Seus passos agora estavam leves e descontraídos. Sabia a verdade agora, é claro. Andava desligada e seus pés a guiavam: que a levassem para onde quisesse.

Ploc, ploc.

Chegou, finalmente, a um complexo enorme com vários prédios. Imaginou que o outro teria sido ainda maior. Mas gostava de simplicidade. Afinal, estava andando na chuva. Percebeu que fazia muito tempo que não tomava chuva, e por um segundo aquilo pareceu-lhe belo.

Ploc.

Olhou para seu corpo e viu um casaco encharcado, uma mochila inundada e tênis ensopados. Deu de ombros. O máximo que aconteceria era alguém ter que secar o chão.

Um pequenino raio singelo de sol surgiu entre as nuvens. A garota entrou no prédio com a certeza de que, seja lá o que a esperasse, um belo entardecer ensolarado a esperaria na saída. Seria muito bom para se secar, pensou, depois daquela caminhada na chuva.


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Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

0 thoughts on “Tempestuosamente

  1. Matheus Vasconcellos: Me impressiona o fato da Lets conseguir fazer um fato do cotidiano tão simples pelo qual todos já passaram se tornar uma obra reflexiva desta magnitude, incrivel.
    P.S: Adorei a forma como você escreveu esse texto, ele cai na gente fazendo Ploc Ploc

  2. Let's muito bom. Um dia quero escrever tão bem assim como você. hehehe!! Nossa realmente faz refletir sobre nossas escolhas! Amei!!! Beeijinhos Camila

  3. Acho que eu posso dizer que cada vez que leio um texto da Lets, eu acabo crescendo. Eu tenho um jeito meio dfdramático e romântico de escrever, já a Lets traz um singelismo normal e ao mesmo tempo reflexivo. Pode ter certeza, eu irei comprar seus livros, devorá-los e se Deus quiser, crescer com você, trabalhar com você e dividir o pouco que eu tenho com o muito da sua arte. Beijos, Raay. Adoreeeei mesmo tooodos os textos *-*

  4. Math: Obrigada, adorei o "cai na gente fazendo ploc" *-*

    Camis: Obrigada, mesmo *-* me sinto honrada com você querer escrever como eu KKK

    Ray: Você acabou de acertar meu coração e fazê-lo derreter KKKK é muito importante pra mim ouvir (no caso ler) que meus textos fazem alguém crescer, de verdade. Você realmente não faz ideia. Também adoro sua escrita e espero de você tudo o que espera de mim hehe *-*

    Beijos yal, adoro vocês!

    Próximos leitores desse texto, aguardo seus comentários, irei respondê-los 😉

  5. Eu comecei a ler esse blog com a indicação da Rayanne *-* , e eu to A-M-A-N-D-O ! em especial esse texto que é um dos meus favoritos ! adorei como você escreveu sobre esse assunto , me fez refletir muito sobre as minhas decisões , hahahh. Muito sucesso pra você ! beijos :*

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