Deu Merda (ou Banheiro de Vaquinha)

Deu Merda (ou Banheiro de Vaquinha)

Que faxinas inspiram, eu já sabia. Basta ver quantas vezes, fazendo o trabalho mecânico de esfregar, ideias aparecem dando oi.

Mas jamais iria imaginar uma com desfecho como a de hoje. Merda, é a melhor palavra, e você saberá por quê.

Ficou combinado que ia acontecer uma limpeza geral na casa. Paredes do banheiro social, chão e paredes da cozinha, chão da área de serviço. Eu fui encarregada de começar com algumas tarefas menores e depois me juntar ao multirão da cozinha.

Veja bem: calor, faxina. Eu pingava e bebia água que parecia repor nada. E não sou como as pessoas de casa: gosto da limpeza e organização, mas não sou fascinada com o ato de executar a limpeza que nem elas (bom, quase todas elas, acredito que três das quatro), que parecem ter prazer no suadouro e esfregação.

Arrumar eu gosto. Se me sinto inspirada, faço grandes arrumações. Mas se o lugar está um caos eu preciso da inspiração porque o caos me oprime demais. Enfim.

Limpeza feita, tudo lindo, recebi as compras do mercado, fui tomar o merecido banho e voltei pra cozinha para desinfetar as compras.

Sim, a gente desinfeta cada item que chega em casa, um por um. Eu sou a principal encarregada disso, inclusive, por não ser grupo de risco. Aqui a gente não vai pegar corona das compras, se pudermos evitar.

Aí, minha tia jardineira foi experimentar sua mais nova aquisição em adubo.

A pandemia exaltou o lado da jardinagem dentro dela, e ela começou a investir em uma coleção de cactos e suculentas, além de novos utensílios e adubos. Este era um dos bons, que os experts dizem ser o melhor. Já usamos dele antes, de uma outra marca, em pó. Ela comprou líquido de um vendedor online no mercado livre. Não era de marca chique.

Aí, o primeiro sinal de que ia dar merda foi o fundo da garrafinha estufado.

Mas, seguindo seu plano, foi pra pia abrir a tampa.

Entenda que estávamos de banho tomado com a cozinha limpa.

O líquido preto voou, feito Coca-Cola chacoalhada, pela parede, a própria pia, a roupa da minha tia… Até o pote de sal foi atingido, por fora apenas.

Metade do vidro foi ejetado.

Fui ajudar a limpar, peguei o pote de sal e senti…

O fedor de merda.

Imagem de uma vaquinha feliz. Crônica: Deu merda (ou Banheiro de Vaquinha), por Letícia Wilhelm

“Isso é cheiro de estrume de vaca!”

O nariz ardia enquanto limpei o porta-sal e ela lavou a pia e a parede. Voltei depois a desinfetar as coisas e o cheiro continuava. Fui até a sala e ela estava regando e adubando as plantas na varanda. Quase caí pra trás. O treco empesteou a casa, a sala era o próprio banheiro de vaquinhas.

Saí dali tapando o nariz e chingando o cheiro de merda. Fui beber água. Aí achei.

A sujeira do tapete, avental, outra parede, fogão, chão. Toda a área próxima da pia, basicamente.

Taca a pegar o rodinho e lavar tudo de novo.

Nariz queimando, estômago protestando, olhos querendo chorar de frustração.

Nesse ponto, todo mundo já estava indignada com o anti-climax de uma cozinha cheirosa se tornar…

Uma composteira.

Passei a noite no quarto aproveitando o cheiro de banho e o ar ainda puro. Depois, fomos comer.

No fim da noite, ainda descobriu-se mais um pouco no armário e por baixo do escorredor de pratos. E enfim a merda foi limpa da cozinha.

Pelo menos alguma merda que aparece na vida a gente tem que conseguir limpar com uma boa esfregada, não é mesmo?

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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