Outro Estranho na Janela

Leia a primeira parte dessa história: Um Estranho Na Janela  
Texto para a oficina criativa do colégio, inspirado na imagem de uma edição do Bloínquês que não consegui participar porque não consegui escrever o texto a tempo.
Dedicado aos Chapeleiros e Alices do mundo.

O sol dourado de outono brilhava a meio caminho do chão. A moça sentava-se em uma telha mais macia, no telhado de sua casa. Usava um vestido confortável e tinha os pés descalços. Largou o pequeno livro amarelo que lia no peitoril da janela e viu as árvores se espreguiçarem.

Nas casas ao redor, cachorros latiam para os donos que chegavam mais cedo. Crianças vinham sorrindo da escola. Um dia comum e pacato.

Alice gostava de sentar-se no telhado desde a noite em que seu irmão disse ter visto Papai Noel na janela. Fora tão surpreendente ouvir Felipe dizendo aquilo, já que ele costumava ser tão chato e estraga-prazeres, que seu passatempo virou sentar-se no telhado e esperá-lo.

Mas um dia todos crescem e Alice parou de acreditar em Noel e outras coisas. Olhava para sua vizinhança e via a cidade além, com todos aqueles prédios altos que parecem se esticar para alcançar o céu inalcançável, aquelas formiguinhas de terno andando de um lado para o outro atarefadas, sem sequer perceber a luz ou as estrelas os cercando. Não sabem o quão doce soa o violino em uma bela noite de lua cheia, com macarrão para a janta.

Lembra-se, então, do fato de que são poucos os que apreciam as simples e belas artes da vida. E é quando se lembra disso que vê que ela mesma não sabe mais fazer tudo isso e que ela já não acreditava tanto em seu potencial. Ela só tinha cabeça para livros escolares que entulhavam a sua frente (pareciam tanto com os prédios da cidade!). Só quando tinha tempo de sentar-se no telhado é que ela conseguia ver o quanto da vida estava perdendo. Seus momentos de não preocupar-se com o futuro e com estudos (e todas as outras coisas de pessoas grandes) eram tão raros.

Desenho by Letícia Wilhelm

Ouviu um barulho ao lado e virou a cabeça. Ali estava uma figura realmente excêntrica. Usava um terno de veludo azul com calças xadrez de marrom e vermelho, tinha olhos muito esbugalhados e uma cartola alta na cabeça. Assobiava displicentemente. Virou seus olhos penetrantes na direção da garota e abriu um sorriso que, bizarramente, lembrou-a de queijo.

– Quem raios…
– Qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?
– Ahn?
– Bom dia! – estava do lado de dentro da casa, com os braços apoiados no peitoril e agora batucava alegremente os dedos – Ou será boa tarde? Não importa! Acho que já podemos acender as velas, hoje é seu desaniversário, certo?
– Como? Quem é você?
– Ora! Quem sou eu? – o homem riu abobalhado. Depois começou a franzir o cenho – Verdade, quem sou? Serei eu o Coelho Branco, sempre na hora? Serei eu o Gato com aquele sorrizão? Só espero não ser a Rainha de Copas… não pelas cabeças, veja bem, só não acho que corações vermelhos me caiam bem…
– Você está de brincadeira não é? Você não pode ser o Chapeleiro!
– Sou, sou sim. Pelo menos eu era. Não é?

Alice olhou o livro embaixo do cotovelo do Chapeleiro e piscou algumas vezes. Devia estar lendo muito.

– Estou imaginando você, certo?
– Não sei. Mas se estiver algum motivo tem, não é mesmo? Então, quer chá?
– Chá?
– Sim, é bom pra refrescar as ideias da cabeça… apesar que já nem sei mais se tenho cabeça, que dirá ideias! – E gargalhou mais uma vez.
– Estou louca, não é?
– Você é louca, louquinha. Mas vou contar um segredo: as melhores pessoas são.

Alice franziu as sobrancelhas. Mas teve que se segurar para não rir: Chapeleiro agora tentava sair pela janela e sentia uma certa dificuldade, estava todo torto. A menina se levantou e puxou-o para fora. Eles se sentaram no telhado e Chapeleiro perguntou:

– Porque está aqui sozinha.
– Pensando. Nos meus problemas.
– Pensar não é bom, não mesmo… Pensando bem, pode até ser sim… Espere, problemas?
– Não aguento mais não sorrir e rir com a vida, só me preocupar. Estou virando mais uma… – formiga da cidade, pensou. Chapeleiro pareceu estranhamente sério por um momento antes de olhar por cima do ombro da garota e dizer:

– Olhe aquele homem. Não, espere, não olhe agora, vire-se para mim, vamos conversar.
– Tá bem…
– Você é?
– Alice?
– Me pergunta por que? Se é, é. Você que tem que saber, não eu.
– Sim, sou Alice!
– Como?
– Sou Alice! – quase berrou.
– O que você quer, Alice?
– Quero ter um futuro promissor.
– Certeza?
– Sim… Não. – Olhou ao redor e ao ver o livro amarelo disse – Quero viver num mundo de maravilhas.
– E porque não está fazendo isso agora?
– Que caminho devo tomar?
– Não sei. Qualquer caminho que você tomar pode te levar pra qualquer outro lugar. Você que tem que escolher.

Alice suspirou.

– Aquele homem parece saber das maravilhas que o cercam. – ele apontou de novo o tal homem.

A menina olhou para onde o Chapeleiro maluco apontou e viu, lá embaixo, seu irmão, Felipe, brincando com o cão. Ria como as crianças quando chegavam em casa e corriam para brincar mais um pouco. Se jogava no chão com o cachorro e parecia mais um menino do que um jovem adulto com grandes responsabilidades.

– Não tinha um tipo de bolinho que fazia encolher? – perguntou Alice.
– Bolinho que faz encolher? – o Chapeleiro gargalhou – Você é doida, é? Pensa que isso é um mundo das fadas?
– Mas você está aqui!
– Estou porque você quis que eu estivesse. Você inclusive me tirou pela janela. Se quer encolher, é só isso que precisa. Querer.
– Tá. E se eu quisesse voar? Isso é impossível.
– Só porque você acredita que é.

Alice bufou em meio a um sorriso. O Chapeleiro ergueu o chapéu, correspondendo com um sorriso engraçado. Lá de baixo, ouviu o irmão chamar:

– Alice, sai do telhado e vem jantar!
– Já vou! – mas quando se virou para despedir-se do Chapeleiro, ele já havia voltado para o livro ou seja lá de onde ele tivesse vindo.

A garota demorou um pouco para descer. Olhou a noite se estender sobre as árvores, mas algo ainda brilhava dourado. Talvez fosse seu sorriso. Coisas tão impossíveis haviam acontecido que a menina já podia olhar suas obrigações de moça como algo muito fácil de realizar.

Então entendeu o que Felipe quis dizer quando ela era uma garotinha e ele vira Noel na janela. Porque agora Alice tinha a mesma sensação de liberdade e um novo ânimo a atingiu quando soube que dentro de seu bolso sempre haveria uma dose de bolinho que faz encolher.

Levantou-se e, olhando mais uma vez pela janela, entrou e foi jantar, pronta para perguntar qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha. Ela não fazia ideia, mas, sinceramente, de que importava?

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

0 thoughts on “Outro Estranho na Janela

  1. Excelente texto que custou para ser lido, uma vez que não encontrava tempo para acessar este blog tão especial. Só para variar um pouco! 😉
    Parabéns! O grande risco de ficarmos sobre o telhado é que podemos ser atingidos pelos projéteis de uma pomba maluca! =)

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