Sobre marcas e bronzeados

Sobre marcas e bronzeados

Houve um tempo em que eu tinha a marca do chinelo nos pés bronzeados do sol. Duas tiras em cada pé, o contraste tão grande que eu parecia estar calçada. Nesse tempo, costumava ter marcas de bermudas e mangas de comprimentos diferentes também. Isso tudo era o sol ardendo na pele, dia a dia, enquanto pedalava até meus diversos destinos.

O do chinelo, era o Muay Thai. Um tempo bom, de socos e chutes catárticos, risadas com amigos que aos poucos se tornaram foco solitário, quilômetros de pedalada para ir e voltar dos treinos. Muito saudável, todo o exercício.

Era, na verdade, uma luta interna.

Os socos e chutes aconteciam por dentro, tentando descobrir que lado ganharia mais espaço na consciência: o alegre e jovial ou o sombrio e desbotado. Comecei como uma esperança de vencer uma batalha que já se estendia e que parecia não ter fim. Por um tempo, as marcas do chinelo foram suficientes para acalmar a luta.

Até que não foram mais.

E então havia a luta de por o chinelo, pegar as luvas. E aí nem essa havia mais.

O mundo desbotado consumiu a última gota de energia. Em minha nova inércia, assisti aos pés desbotando e voltando a ter uma cor só.

Claro que, quando chegaram em uma cor só, o lado perdedor estava pronto para continuar o próximo round. Não suportava mais olhar ao redor e não ver as cores e contrastes. Buscou ajuda.

As pedaladas aos poucos começaram a deixar de serem úmidas nos olhos e passaram a ter mais vida. Os dias eram menos nebulosos. As coisas eram mais saborosas. Os pés tinham uma só cor ainda, mas ao menos eu podia vê-la.

E então, tanto tempo depois, o pedalar foi interrompido por uma luta externa, global, contra outros inimigos invisíveis.

Agora, um ano depois, exausta mas ainda pronta para a batalha, olho meus pés e começo a ver duas cores. Formatos diferentes de antes, de um sapato de combate usado repetidas vezes para todas as caminhadas pelo mundo além de minha janela.

Mais uma vez meus pés têm duas cores. Símbolo do marchar.

Vejo as cores e outras marcas e sei que estou vivendo, ansiosa para que as cores e marcas um dia sejam só de vida e não de luta.

Ou será que a vida é luta?

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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