Olhe. Um pequeno quadro, um momento. Ali, por onde homens de calça social passam apressados e mulheres de sapatos baixos esticam-se para o outro lado, há um retrato. Ninguém o vê. Ninguém o quer. Passam ao seu lado, passam por cima, passam. Os poucos que o olham não veem realmente o que há para ser visto. Enxergam um obstáculo e mal percebem o mundo refletido ali, naquele espelho plácido que espera pacientemente por alguém que o olhe.
Um garotinho joga uma folha de papel. Um segundo para captar o rosto do menino não é o suficiente. Uma perturbação. Espera.

Um homem passa olhando o além. Mas por que, por que não olha? Não consegue ver, bem ali, a beleza que está esperando por alguém?

Vejo o céu, azul, puramente azul, com nuvens doces e a árvore emprestando sua cor verde. Enquanto todos olham para o concreto, olho para o infinito. O tempo todo vejo o infinito e seu temperamento conturbado: ora ensolarado, ora tempestuoso. Ora azul e verde, ora cinza e vermelho.
Naquela singela tarde capturava o belo azul e verde e apenas uma pessoa concedeu tempo para o reconhecimento merecido. Não é algo imundo. É muito mais do que isso.

Passa uma ave. Passa um carro. Uma onda desmancha todo o belo quadro. Tão logo a ave voa e o carro acelera, o espelho da rua volta a apontar aquilo que ninguém tem tempo de ver e permanece… Silencioso. Invisível. Imperturbável.

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Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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