Entra no palco. Estalos de todos os ângulos a olham. É chegada a hora.

Girava lentamente, com as mãozinhas acima da cabeça, na ponta dos pés. Os olhos fechados sentiam a música e seu ritmo tranquilo, o piano tocando lentamente. Era uma caixinha de música. A expressão compenetrada em finalizar sua arte. Era o momento de brilhar e mostrar a todos o quão boa podia ser.

Sentado na terceira fila, a olhava com atenção. O balanço de sua saia ao vento, os acordes, sincronizados. Seu coração palpitava em seu peito, com uma emoção que nunca sentira igual. Não sentia empatia, pois a expressão que ela lhe mostrava era de tranquilidade e seu coração estava longe de sentir isso. Era apertado, era alegre. Sentia vontade de sair correndo e pulando por ali, gargalhando.

É curioso o que um piano tocando tranquilamente podia fazer. Silêncio. Cumplicidade. Concentração. E a mesma vontade de correr gargalhando sob o sol. Ia e vinha, ia e vinha. Agudo, grave. Não haviam moscas porque o único zunido era o seu próprio.

E então os corações, nervos, cordas, se acalmam tão rápido quanto se animaram. Não precisavam mais disfarçar a emoção em máscara serena, pois agora todos explodiam em conjunto. O calor de um abraço, lágrimas paternais, sorrisos. Missão cumprida.

Fechou a tampa da caixa e olhou pela janela. Bons tempos aqueles em que conquistava uma platéia com piruetas. Sua miniatura, dada de presente pelo espectador favorito, com a música da primeira apresentação ficava ali, pronta para tocar todas as vezes que quisesse se lembrar.

Facebook Notice for EU! You need to login to view and post FB Comments!

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *