Meu Velho Furgão

– Então, Francis, aquele meu velho furgão, lembra? Obrigaram-me a vendê-lo. É um saco. Eu fui atrás de um monte de possíveis compradores, coloquei anúncio no jornal, tava quase distribuindo panfleto… Ninguém o quer. Me deprime, isso.
– Mas, cara, é lógico que ninguém vai querer. O negócio é velho toda vida e, vamos combinar, tinha um cheirinho de não-sei-não…
– Qual é! Não acaba com meu carrinho! Ele foi meu primeiro amor, meu primeiro filho, meu melhor amigo… er, sem ofensas…
– Claro, claro…
– Enfim… Nele eu descobri o mundo! Fui para cidades grandes, de campo e históricas, fui para o meio do mato… Fiz as maiores loucuras, me diverti e conheci melhor as pessoas… Eu também comi meu primeiro burrito lá, tanto que até caiu guacamole e…
– Peraí, você nunca tinha comido burrito antes daquilo?
– É, você me apresentou a culinária mexicana.
– Nossa, isso é muito bizarro… Tipo, seu nome é Juan!
– Lá eu também ouvi muito rock, muito Beatles… Lembra de nós indo para o show do Paul McCartney?
– Sim, aquela lata-velha parou de funcionar no meio da estrada e nós quase perdemos o show…
– Ah, bons tempos…
– Ei… Juan… cê tá legal?
– Hum?
– Seus olhos estão meio brilhantes…
– Ah, não é nada não… foi só um cisco…
– Ah, tá. Juan, sabe, você… hum… não precisa… vender o furgão.
– Quê?
– Você pode, sei lá… fazer uma arte nele e, não sei, arranjar um lugar para deixar exposto.
– Você é genial!!! Vamos, ligue para a Sara, a Jessica e o Gui, vamos fazer algo incrível! Podíamos escrever e desenhar coisas hippies! E depois podíamos deixar naquele parque que o pessoal usa para expôr as coisas! Ah, vai ser tão legal!
– Sim, vai sim… Vamos imortalizar o velho furgão.

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

0 thoughts on “Meu Velho Furgão

  1. O BLOG ESTÁ LINDO *-*
    Este texto soou-me bem diferente do quê eu leio vindo de você, e adorei! Você utilizou do amor pelas lembranças do bem material para demonstrar que o que separa o apego às coisas materiais do sentimento por elas, é justamente querer eternizá-lo e compartilhar com os outros e não apenas guardar aos cuidados da Sr.Poeira. Adorei, como tudo o quê você escreve u.u'

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