O relógio marcava duas da manhã. Seu tic-toc ecoava pelo saguão quase vazio. Quase, porque havia um homem e uma mulher sentados num banco bem no centro. Estavam de costas um para o outro e, sendo assim, não podiam se ver, apenas se ouvir. A moça fungava.
– Você está bem? – ele perguntou, desviando o olhar de suas mãos.
– S-s-sim, claro. Ogrigada.
– Bom, não me parece que você está bem. Se quiser, pode me contar. – disse com voz gentil, mas cabisbaixo. Esperou.
– Estou com um problema – ela disse por fim – não sei o que fazer.
– Pode me contar qual é o problema?
Ele se pegou imaginando o rosto da moça. Eles não tinham se visto ainda, por mais estranho que possa parecer. Estavam sentados lá a horas, desde quando o saguão do metrô estava apinhado de pessoas. E ali continuaram até agora.
– Não sei. Não conheço você e… – ela respondeu envergonhada.
Ele riu baixinho.
– Tudo bem. Mas eu também estou com um problema.
– Sério? Qual?
– Acho que também não deveria contar. – disse um pouco divertido.
Ficaram em silêncio por um tempo.
– O que você gosta? Sabe, de fazer? – ele perguntou, animando-se com a perspectiva de conhecer uma pessoa nova.
– Bom, eu gosto de… música. Colocar uma música alta e dançar loucamante – ela disse rindo.
– Como se você fosse uma… Dancin Queen? – ele riu também.
– Claro! Eu amo essa música!
– Eu também! – e então ela começou a cantarolar a canção. O rapaz logo se juntou.
E então ele disse:
– Sempre rio quando toca essa música em festas. Uma vez dancei que nem um louco em um aniversário, a muitos anos atrás…
– Adoro quando dançam que nem louco!
Eles riram mais um pouco e, subitamente, o silêncio caiu sobre eles.
– O que veio fazer aqui? – ele perguntou, gentil.
– Vim ver meu irmão, que não vejo a pouco mais de dez anos. Não sei nem se reconheceria ele de primeira, sabe? Mas ele não parece estar muito interessado em me ver, já que nem apareceu. – ela disse mais séria e com um pouco de dor na voz.
– Entendo. Estou esperando alguém também… que não apareceu…
Eles pararam eretos. Sentiram seus órgãos despencando até a ponta dos seus pés e mais além. Seus corações palpitaram e seus pulmões se espremeram contra as costelas. Ela sentiu até uma tontura.
Lentamente, se ergueram. Ainda de costas um para o outro, ofegantes, sentiram suas bocas secas.
– Jake? Jake Simon?
– Suze?
Eles se viraram. Seus olhos brilhavam. Suze poderia jurar que ele tinha os olhos tão úmidos quanto os dela.
– É você! – gritaram ao mesmo tempo. Mas não correram para se abraçar. Primeiro olharam bem um para o outro.
Jake parecia mais alto, se era possível. Agora tinha quase quarenta anos, mas seu olhar continuava o mesmo: doce e juvenil. Suze tinha agora vinte e, com certeza, Jake nunca a reconheceria. A última vez que a tinha visto, ela tinha dez anos e era uma garotinha. Hoje era uma mulher adulta. Mesmo que as feições continuassem iguais e ela permanecesse com o olhar inocente, ele sentiria dificuldade de perceber quem era ela.
Mas o coração de irmão não mente. Eles deram a volta no banco e se abraçaram fortemente, como nunca fizeram na vida.
– Senti muito a sua falta. – ela disse.
– Sinto muito não poder te ver crescer.
– Mas pode me ver agora – ela sorriu.
Problema resolvido, seguiram de mãos dadas para algum lugar bonito onde contariam um ao outro suas aventuras vividas naqueles dez anos. E depois, mais tarde, colecionariam mais algumas novas para guardarem em seus corações.
Letícia Wilhelm
Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.


Leets! Adorei o seu blog tem muitas coisas legais!! Tomara que no futuro vc seja mesmo uma escritora e aí eu vou comprar um livro seeu!! auhauahauhaua!!
Já sentiu o odor intendo do perfume de laranjeira? existe mesmo ou é pura imaginação?…
Já sentiu o odor intenso do perfume de laranjeira? existe mesmo ou é pura imaginação?…