Rosa Sobre Cinza

A corrida ia sair caro. Mas nada que umas notas a mais funcionassem. Valeria a pena no fim, pensou. A chuva caia fria e cinza sobre os altos prédios, escorrendo pelo vidro que o separava do mundo lá fora. As gordas gotas de chuva aumentavam o brilho melancólico das luzes dos carros.

O tempo passou como navalhas em seu estômago e a chuva caiu como o tique-taquear do relógio. Os olhos piscavam pesados, mas seu cérebro não descansava, a mil. Queria vê-la, saber a reação. De vez em quando se pegava imaginando se seus órgãos não estavam mais interessados em vê-la do que ele mesmo, tamanha a agitação.

Depois de um tempo, a chuva parou, deixando para trás o molhado, a lama e o cinza. Depois, parou seu carro. O tempo pareceu passar tão devagar, mas ele havia corrido tanto… E agora tinha que chamá-la.

Buzinou uma vez.

A porta se abriu lentamente. Uma moça arrumada saiu de dentro da casa, olhando para o carro. A expressão era séria, mas ele notou seus olhos se arregalando e brilhando por um segundo. Não era um brilho alegre: havia angústia nele.

– Não esperava te ver aqui tão cedo. – Ela disse, seca.
– Não imaginava que precisaria voltar tão cedo. – respondeu.

Ela suspirou. Estava parada em frente a janela do carona. Braços cruzados.

– Não conseguiu o que queria? Não te aceitaram, algo assim?

A questão é que ele havia ido para a Europa, tentar a vida. Iria fazer um curso e tentaria um emprego. Não havia prazo para seu retorno. Então teve que se despedir. Mas a vida é muito engraçada, às vezes, e te mostra que algumas coisas que você quer fazer não são as que você deve cumprir.

Um avião, um carro, um posto de gasolina e paciência para viajar quilômetros e quilômetros. Foi o que recolheu.

– Na verdade, eu era um dos melhores do curso. – ela ergueu a sobrancelhas, o encarando.
– Então não conseguiu um emprego? – estava um pouco rouca e com olheiras.
– Na verdade, consegui, e estavam muito satisfeitos comigo.
– Então porque você voltou? O que faltava pra sua felicidade?
– Você, é claro – sorriu fraco – sei que você vai ter problemas com me perdoar, mas como pode ver, eu trouxe presentes, em caixas rosas. Sei que rosa é sua cor favorita, e eu aposto que você vai adorar o que há dentro delas. Tudo o que você sempre sonhou. Sei que não é assim que se ganha um perdão, mas não trouxe só por isso, é que eu sabia que você gostaria.
– E como você veio para cá?
– Correndo com o carro. Tive de alugá-lo. Mas não me importo.

Ela sorriu e deu a volta no carro. Parou à janela em que ele estava e se curvou para vê-lo melhor.

– Não precisava correr. Eu estaria aqui, é claro.

Tinha gosto de perdão. A cor era rosa. Rosa sobre cinza. O carro estava quente, mas suspeitava que a culpa não era dos embrulhos. Corações corriam. A rua molhada secava. O cinza do concreto não era mais tão cinza. Cores se libertavam para um sol que começava a nascer.

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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