Deplorável. Era esse o estado do cara sentado logo ali na cozinha. Olhos azuis inchados, cabelos castanhos bagunçados, água salgada escorrendo pelo rosto. Ofegava.

Se olhasse pela janela, você nunca imaginaria o problema dele. Porque você não o conhece. E é assim que as coisas funcionam: você vê uma cena e imagina um motivo para ela estar acontecendo. Mas quem disse que você está certo?

Apoiados na mesa estava um jornal e um caderno grande de capa dura vermelha. O cômodo não se mantinha muito arrumado. Combinava com o ocupante.

Alguém abriu porta e ele sobressaltou-se. De pé, sentiu seu estômago cair aos seus pés e seu coração se emprensar na parede da cozinha, atrás dele.

Se você estivesse olhando pela janela, quem estaria chegando e o que seria o caderno na mesa?

A moça que entrava deixou a chave na mesa da sala e foi até a cozinha com uma sacola. O rapaz havia se escondido em um canto.

Ela olhou para o caderno. A foto dela e de seu irmão, crianças, se abraçando estava na página aberta. Porque raios seu diário estava aberto na mesa da cozinha?

A página trazia uma sequência de ódio inferido ao irmão. E, no fim, ela dizia “mas mesmo que ele não saiba, eu o amo”.

Se lembrou de como eles brigavam na adolescência e como a partir daí nunca mais se falaram direito. Nunca se arrependeu tanto de algo.

Avançou nas páginas e encontrou uma, praticamente em branco, escrita só “meu irmão está morto”. O resto era enrrugado de lágrimas e uma pétala de rosa.

Sentou-se. Deplorável, era o seu estado. Os olhos azuis inchados, os cabelos castanhos bagunçados. Água salgada pelo rosto. Ofegava.

Depois de um longo tempo, sentiu-se observada. Olhou para trás.

Ele estava ali, olhando-a. Tão iguais.

– Desculpe – disseram. Sorrisos. Ele e ela podiam brilhar em paz agora.

Não havia nada pendente. Não havia culpa. Havia perdão e um gosto de segunda chance. O sol pareceu mais forte ao entrar pela janela. A água salgada secou.

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

0 thoughts on “Água Seca

  1. Sempre que leio o que não é óbvio, penso no talento de quem escreve! Afinal, palavras como "mesa", "lágrimas", "ódio" etc são palavras acessíveis a todos os que escrevem em português. Entretanto, surgem tanto textos tolos quanto textos elegantes. Na minha opinião, esta crônica é exemplo desse segundo grupo de textos!

  2. @MathSwim diz:
    Quase q eu fico molhado de água salgada com este texto teve um pequeno paragrafo q até me lembrou meu irmão, amo muito seus textos continue assim lets go
    <3

  3. Eu gostei muito, achei bonito. Pessoalmente, acho que você podia ter alongado a parte em que não sabíamos de nada como leitores, e nos levado a te ruma conclusão errada, isso aumentaria o impacto do final, mas é só uma dica mesmo, o texto em si está ótimo.

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