Ponto de ônibus

Então, hoje teve aula de português, (esse ano portugues tá muito show) e eu fiquei um tanto inspirada… aqui vai minha crônica – que está um pouco tosca. Ah, e dedico elas a minhas amiguinhas lily e eloísa, que discutiram algo parecido comigo hoje.

Estavam todos no ponto de ônibus. Duas senhoras, um homem grande e com certo sobrepeso, uma mulher com uma criança de colo e um menininho animado e eu. Estava calor, e isso me irritava. As senhoras tagarelavam, piorando o stress:
– mas o tempo está louco! Ontem mesmo fui fazer um exame e estava chovendo!
– sim sim, e eu tive que tomar quatro banhos ontem!
Olhei disfarçadamente com nojo para a segunda senhora, a que falou sobre os banhos. Afinal, quem está interessado em saber quantos banhos ela tomou? E, o pior, ela já se sente tão íntima assim para falar sobre isso com tanta naturalidade?
– e hoje esse calor… me desculpe, você falou quatro banhos? Mas por quê ?
– tive que sair tanto de casa e pegar tanta chuva que me molhava e me sujava toda!
Mal imagino quantos ela tomaria hoje, que estava calor. O homem gordo se mexeu no banco e empurrou sem querer a mulher com a criança pra cima de mim; a criança, logicamente, chorou. E daí começou mais barulho: as senhoras conversando sobre banho, o homem se desculpando, a criança chorando e o menininho pedindo doçe para a mãe. Uma moça parou ao meu lado e perguntou:
– o 30 já passou?
– não – respondi, parecendo alegre e educada. Sempre o ônibus 30 passava quando ninguém precisava. E quando precisavam, não passava. Ouvindo a pergunta da moça, o assunto das senhoras se voltou para a demora do ônibus. Calculei mentalmente o quanto queria que ele chegasse logo: o resultado foi bem alto. Dez minutos de espera, ainda a mesma bagunça. Só que agora o homem gordo encontrara um amigo de faculdade, parece, e conversava alegremente com ele. Quando eles se viram eu quase caí do banco do ponto de ônibus.
– Alberto!
– Ricardo, fala rapaz! – então o gordo se chama Alberto, foi o que pensei, depois de recuperar o fôlego com a voz grossa dos dois dando aqueles berros de velhos amigos se reencontrando. E eles falavam alto. Bem alto.
– como está a Susie?
– ah, nem me fale. Ela está com uma gripe horrível – Ricardo disse como se isso fosse a pior coisa que poderia acontecer.
– puxa, é sério? Mas que coisa triste.
– é sim… e ela teve pneumonia a alguns meses atrás.
– puxa que mal… mas e aí, viu o jogo do Palmeiras com o São Paulo?
Parei de ouvir ali. Como dois amigos de faculdade tem capacidade de se encontrar na rua e conversar sobre futebol? Não existem outras coisas mais interessantes para se falar? Depois de mais algum tempo (e um executivo se sentar dois bancos de distância de mim e discutir no nextel sobre algum evento importante – com direito a falar alto além do bip irritante do aparelho) o ônibus finalmente chegou. Após a viagem (com todas as pessoas do ponto dentro do ônibus, sendo que havia um rapaz ouvindo música muito alta no fone de ouvido) cheguei em casa e parei pra pensar no seguinte: é ridículo como as pessoas arranjam assunto para falar com desconhecidos e como existem assuntos ridículos para serem falados. E, claro, como um ponto de ônibus pode ser barulhento… e também bastante revelador.

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

0 thoughts on “Ponto de ônibus

  1. caraaaaaaaaca lets, eu sempre amei ler cronicas.. mas ler uma sua? QUE DEMAIS! adorei, muito boa SLPJELPS *-* e foi dedicada pra mim e pra elok :’D que emoção! te amo ♥

  2. UHAUAH ela realmente presta atenção no que eu digo ! e ainda escreveu uma crônica em nossa homenagem, que linda *-*

  3. Como viajante de ônibus veterano, e como entrevistador de velhinhas, me surpreendo com a habilidade que as pessoas tem de realmente conversar com estranhos coisas do nada. Principalmente de falar da própria vida. Parece que com a idade a necessidade de fazer isso aumenta também.
    E pra cá onde moro, as pessoas nem se preocupam mais com fone de ouvido, agora elas entram no ônibus com celulares que tocam música ruim e alta.
    Pura realidade tudo ali.

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