Mulherzinhas, Louisa May Alcott

Mulherzinhas, Louisa May Alcott

Após assistir à nova adaptação de Mulherzinhas, intitulado Adoráveis Mulheres (2019) e, em seguida, a de 1994, decidi que este era um bom título para seguir a onda de livros de época que havia iniciado após ler Anne de Green Gables. Encontrei na pela Kobo Editions, gratuita na época, o livro (Little Women, no original) e o audiolivro em inglês e me pus a ler.

Mulherzinhas (ou Adoráveis Mulheres nas versões cinematográficas) é uma obra semi-autobiográfica da autora estaduniense Louisa May Alcott. No romance acompanhamos as irmãs Meg, Jo, Beth e Amy March passarem da infância para a idade adulta. Neste processo, acompanhamos as brincadeiras e sonhos infantis, além dos desafios da vida.

Alcott publicou a história das irmãs March em dois volumes, entre 1868 e 1869. Por isso, ao final da primeira parte, em que as quatro irmãs ainda são meninas, há um final em aberto. Com o sucesso da obra, ela lançou a segunda parte, contando a história três anos depois.

No Reino Unido as duas metades foram publicadas separadas, como Little Women e Good Wives (Boas Esposas). Por isso, é comum encontrar um Mulherzinhas em edições muito grandes ou dividido nessas duas partes. Aqui, falo do volume único, com as duas metades.

Louisa também publicou, depois, as continuações Homenzinhos (Little Men) e Jo e os Rapazes (Jo’s Boys). Estes têm menos edições em português, mas ainda é possível encontrar. Quanto ao Mulherzinhas, existem inúmeras edições físicas no momento para escolher (inclusive com os volumes separados), além de e-books. No caso de e-books, além de sempre ter algum disponível gratuitamente na Kindle ou Kobo, você pode encontrar, em inglês, no Projeto Gutenberg.

Como é a história?

A história fala de quatro irmãs relativamente pobres lidando com o pai longe, participando da guerra civil, as limitações da falta de dinheiro e as dúvidas que surgem sobre a vida conforme crescemos. Mas também mostra sua criatividade, alegria e imaginação, bem como sua amizade com o vizinho Laurie (a quem Jo chama de Teddy).

Louisa cria personagens memoráveis. Todos são complexos, com contradições e personalidades únicas. Considerando o período em que a história foi escrita, acredito que é um enredo bastante visionário: não só por parte de Jo, que a gente nota desde o início, mas da obra toda.

Acredito que além das irmãs, Laurie (ou Teddy) é o melhor personagem, cheio de conflitos, mais do que os outros secundários. É um garoto adorável e brincalhão e cresce na história também, passando por seus próprios dramas até se tornar um rapaz e encontrar sua felicidade.

As irmãs

Meg March

É uma moça bela, gentil e que prontamente faz o papel de mãe quando é necessário. Ela tem um emprego como governanta e se encontra sempre no limiar entre a vaidade e a humildade. Eventualmente casa-se por amor com um homem pobre e acompanhamos sua trajetória aprendendo a viver um casamento e cuidar dos filhos. Ela se torna, em certos termos, uma segunda versão da mãe e acredito que ambas, apesar de refletirem a mulher da época, têm seu valor mais “moderno”. O discurso da boa esposa não me soou completamente estereotipado com a servidão da mulher: há uma defesa do apoio mútuo.

Jo March

A segunda mais nova, é a escritora apaixonada por livros. Cria peças para as irmãs atuarem e passa horas com Teddy, o vizinho e seu melhor amigo. Não se conforma com as expectativas da sociedade: para ela, casamento é abrir mão da sua liberdade e separar a família (o que gera um contraste dela com as irmãs em vários momentos).

Além disso, também não se comporta como o que se espera de uma moça: é sapeca, faz bagunça e em geral tem a postura de um garoto. É explosiva, também, e se sente angustiada por isso. Entretanto, Jo é extremamente generosa e ama profundamente seus entes queridos, dedicando-se ao máximo em ajudá-los.

Com o desenrolar da história, Jo vai aprendendo a equilibrar seus valores e personalidade. Ela não passa a se conformar, mas entende que não pode ser tão extrema em suas convicções. Ela é uma personagem que inspirou gerações de meninas no mundo. Posso confirmar que sua explosão de escrita me inspirou a escrever também.

Beth March

É a gentil, meiga e pacificadora das irmãs. Ama animais e o lar, sempre pronta para ajudar os pais, as irmãs e qualquer outra pessoa. Ela se dedica tanto aos outros que faz as irmãs parecerem extremamente egoístas em alguns momentos. Essa dedicação tem um preço.

Não tem grandes ambições para o futuro e é extremamente tímida. Faz amizade com o Sr. Laurence, o avô de Laurie/Teddy e é uma coisa muito meiga de se ler. Ela é excelente pianista também. Seu papel na história parece curto, mas o impacto é enorme. É difícil falar dela sem dar um super spoiler para quem não assistiu ao(s) filme(s) ou leu o livro. Mas há um acontecimento que envolve Beth em que Louisa escreve de uma forma muito emocionante: prepare o coração.

Amy March

Amy é a mais nova e a de desenvolvimento mais gritante, para mim. É uma garotinha que pensa em se casar por status, para ter dinheiro e manter a família. É artista, teimosa e um tanto egoísta, por assim dizer. Porém, na segunda parte, em que já é uma jovem, Amy se torna mais séria, sábia e ponderada. Ela aprende a viver pelo coração e não pela lógica do bolso. Além disso, realmente correu atrás de se realizar como artista.

Acho que mais ao final do livro ela some um pouco: os holofotes ficam em Jo nos últimos capítulos, mas a outra metade da segunda parte foca bastante nela mesmo assim. Aliás, acho que Florence Pugh, que faz a personagem no filme de 2019, fez muito bem a transição da menina para adulta. Na versão de 1994, Kirsten Dunst faz a Amy criança (perfeita!) e Samantha Mathis a adulta.

A escrita

Cena de Adoráveis Mulheres de 2019, dirigido por Greta Gerwig, adaptação de Mulherzinhas.

Em Mulherzinhas a autora nos leva numa imersão no universo das irmãs March. Ela faz longas descrições, com capítulos inteiros sobre suas brincadeiras. Pode ser um pouco arrastado para o público muito acostumado com ritmo da escrita do século XXI. Mas temos que lembrar que Louisa May Alcott escreveu para crianças e jovens no século XIX, então o entretenimento todo era aquelas páginas. A época também influencia no conteúdo: há muitos momentos de “lição de moral”, de um personagem para o outro e às vezes até da autora com o leitor.

Inclusive, este é um ponto que achei muito gostoso no livro: Louisa conversa com os leitores. Isso faz você interagir mais ainda com a história. Além disso, a vida que ela dá às personagens e o tempo que passamos com elas vendo seu crescimento faz com que a gente se sinta parte daquele mundo. Assim, Mulherzinhas se torna um livro bom para ler com calma e curtir aos poucos. Um livro alegre, fofo, daqueles que você poderia descrever como primaveril.

As adaptações de Mulherzinhas

Mulherzinhas foi adaptado inúmeras vezes, não só para o cinema mas também para a TV, os palcos e até áudio drama. Porém o título em português é alterado para Adoráveis Mulheres, então fique #atenta.

Em 2019, a adaptação dirigida e roteirizada por Greta Gerwig chegou aos cinemas. No elenco temos  Saoirse Ronan (Lady Bird), Emma Watson (Harry Potter), Florence Pugh, Eliza Scanlen (Sharp Objects), Laura Dern (é muito filme), Timothée Chalamet (Me Chame Pelo seu Nome) e Meryl Streep (precisa lembrar?). É um elenco estelar que combina com a qualidade do filme. Adorei a forma não linear como Greta contou a história – mais compatível com o público moderno. Foi a partir dele que a história se popularizou de novo agora.

Cena de Adoráveis Mulhereres de 1994, com Susan Sarandon, Kirsten Dunst, Winona Ryder, Claire Danes e Trini Alvarado.

Em 1994 houve outra versão de elenco estelar, a qual assisti logo após a de 2019. Winona Ryder (Stranger Things), Kirsten Dunst (Homem Aranha), Claire Danes (Romeu + Julieta), Christian Bale (trilogia Batman do Nolan), Susan Sarandon (é muito filme) formam o elenco. É uma adaptação linda, parecida com a de 2019 em diversos aspectos, diferente em tantos outros, e também vale muito a pena assistir.

Existem muitas outras, descobri uma de 2018 em que Laurie é interpretado por Lucas Grabeel (o Ryan de High School Musical) e quero assistir. Vale a pena explorar, se você curte esse tipo de filme também.

Enfim, Mulherzinhas é um livro mais que recomendado para todos e suas adaptações, graciosas e de aquecer o coração, também podem compor aquela sessão de cinema familiar, das crianças aos avós.

Resenha do livro Mulherzinhas de Louisa May Alcott
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Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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