Moldura do mundo

Moldura do mundo

Tinha um cara olhando minha janela. Parece super estranho e é, realmente, bizarro. Creepy, como eu diria em meu bilinguismo. Ele, no prédio de frente, estava encostado em seu vitrô do banheiro – que por algum motivo batia no meio do torso dele – e com a mão segurando a vidraça de cima. Olhava descaradamente para nossa janela do quarto, aberta ainda da luz que deixamos entrar durante o dia. Era princípio do pôr-do-sol e minha mãe arrumava suas roupas.

– Tem um cara na janela do outro prédio, no andar na altura do nosso, olhando pra cá.

Tem mesmo. Fecha a janela. Demorei, estava difícil. Ela foi e fechou, não sem antes olhar pra cara do sujeito, que fechou o vitrô.

Como boa escritora que sou, com a veia cronista, a ideia me bateu na cara com luva de pelica. Tudo por causa da frase com a qual iniciei a história. A ideia, não sei bem qual era… Talvez, um olhar de janelas.

As intenções e pensamentos do indivíduo de hoje são, graças ao cosmos, uma incógnita. Prefiro não saber mesmo.

Mas aí, janela aqui janela ali, pensei.

Eu sempre adorei janelas. Não da forma objetiva, como peça arquitetônica ou de utilidade para iluminar e arejar a casa. Eu as adoro de forma poética. Pode ou não ser culpa de Cecília Meireles com A Arte de Ser Feliz, ou Fernando Pessoa com Tabacaria, entre outros.

Crônica: Moldura do Mundo; uma janela aberta para uma floresta enevoada

Seja como for, eu sempre entendi a janela como um portal. Uma forma de mergulhar em si e trazer de dentro um universo inteiro de ideias e forças e pensamentos. Ou uma forma de sair de si, e então encontrar lá fora todo o mundo, as cores e cheiros que esperam serem vistos.

Noites atrás era Ano Novo. Não havia pessoas na rua, porque mal havia pessoas em cada casa. Famílias separadas. A praia cheia de espaço, o céu não explodiria em cores.

Uma multidão de garças se aglomeravam à beira d’água. E, como se soubessem – e sabem -, partiram juntas para o céu no instante certo de todos aqueles rostos olharem pelas janelas.

Rostos com bandeiras coloridas, rostos de branco, com champagne e sorrisos.

Feliz ano, gritavam. Aplausos, acenos. Pela primeira vez, ali naquelas janelas naquelas ruas de frente para onde as garças pousaram, houve confraternização universal.

As cores eram dos piscas. A música, de dentro de casa. E gente que não se conhece se abraçou à distância de uma quadra.

Depois de quase dez meses dentro de casa, a janela tornou-se o próprio mundo.

Tudo o que tenho para ser, e escrever sobre, vem do que há na janela. Toda a beleza e o sonho do mundo está por ali, emoldurada.

E talvez, por um dia, mais pessoas tenham aprendido a ver isso também.

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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