Como incentivar adolescentes a ler?

Como incentivar adolescentes a ler?

Se você convive minimamente com algum adolescente ou pré-adolescente sabe que eles têm a tendência a resistirem a tudo o que não é ideia deles diretamente. Então, como incentivar adolescentes a ler? Recentemente fiz um post sobre incentivar crianças a ler, em que falei sobre o comportamento de manada e com dicas para incluir o hábito na vida deles.

Mas e quando eles ficam mais velhos? Se o hábito da leitura não foi criado desde pequenos, como fazê-los se interessar por livros? Este é um desafio muito maior, segundo colegas professoras. Essa faixa etária começa a ler mais livros nas escolas, até chegar ao ensino médio e obrigatoriamente ler clássicos da língua portuguesa. Porém, muitos adolescentes simplesmente não leem os livros que lhes são indicados. Antes de pensar como reverter, creio que é válido pensar por que eles são assim.

A questão da “preguiça”

Existe uma parte do nosso cérebro que está focada em manter tudo como está e não se esforçar para sair da zona de conforto, porque ao sair dela duas coisas acontecem: você precisa pensar mais, já que é algo novo, e corre um risco, porque está fazendo algo desconhecido. Pensa em um dia em que você fez algo completamente fora do seu normal e como você estava. O nosso instinto primitivo de sobrevivência não gosta dessa tensão, porque ela representa o perigo de um predador, por exemplo. Então ele fala para você não fazer seja lá o que está te deixando tenso.

Dito isso, se ninguém ao seu redor vai para a academia, por exemplo, e exercitar-se é completamente fora da sua zona de conforto, o seu cérebro vai buscar as desculpas mais incríveis para te convencer a não fazer o que vai deixá-lo tenso e trabalhando mais (afinal, olha o esforço em pensar a coordenação motora, a força, as repetições e a respiração correta, e assim vai).

A preguiça pode ser o seu cérebro te sabotando

Portanto, qualquer hábito a se criar, em qualquer idade, parte do enfrentamento desse Ser dentro de você que não quer se esforçar. Se você achou esse meu raciocínio do seu sabotador interno interessante, ele é a “versão literatura” dos estudos de Daniel Kahneman, psicólogo que desenvolveu a teoria do Sistema 1 e Sistema 2, a qual deu origem a uma porção de estudos voltados para como nos comportamos ao gastar dinheiro!

Agora pensa em um adolescente: eles têm seus mundos pessoais com tecnologia, bandas e jogos que gostam, e dificilmente vão querer sair dessa zona de conforto. Porque é isso que estão acostumados e que os outros ao seu redor estão fazendo também. Lembra do outro post, em que falo do comportamento de manada? Para incentivar adolescentes a ler, você precisa ser exemplo. Se ninguém estiver lendo, eles não vão querer ler.

A montanha-russa da adolescência

Além disso, todos que já passaram pela adolescência sabem a montanha-russa de emoções, experiências e pressões sociais que é passar por essa fase. Tudo o que a galera nessa idade precisa é de apoio e gente disposta a ouvir suas aflições; o que costumam receber é comentários irônicos e impacientes dizendo como eles são aborrecimentos. Até parece que os adultos não foram adolescentes e não tiveram seu momento de frustração também!

Se você quer ganhar a confiança do adolescente, tem que mostrar que está disposto a uma troca com ele. Ele pode acreditar em você, há uma parceria (claro, parceria que envolve respeito: se ele quebrar o lado dele, a parceria não vai funcionar. É assim que professores, por exemplo, conseguem lidar com adolescentes). É só com um relacionamento de respeito mútuo que você vai conseguir inspirar alguma coisa neles.

Minha experiência com adolescentes e o que isso pode ajudar

Em todos os anos dando aula em escola de idiomas, sempre lidei com muitos adolescentes. Desde o princípio da adolescência, no limiar entre doze e treze anos, até o final, quando já começam a se tornar jovens adultos, lá para os dezenove anos. Eu tinha duas horas por semana para que eles confiassem e respeitassem o suficiente a pessoa com cara de ter a idade deles (eu) e participassem da aula.

Para incentivar adolescentes a ler é preciso conhecer seus gostos.
  • Um adolescente não é igual ao outro, tirando uma grande questão: ninguém entende eles. Todos, em algum momento e por algum motivo, questionam o resto da humanidade como se eles fossem as criaturas mais incompreendidas do universo. Aqui faço mais uma vez uma crítica a como os adultos tratam eles: se fosse de forma aberta e saudável, eles saberiam que não são os únicos a se sentirem assim e seriam mais saudáveis em seus relacionamentos e sua auto-estima.
  • Adolescentes adoram, como qualquer ser humano, falar sobre o que gostam. Assim, a partir do momento em que você demonstra interesse pelo universo dele, ele sente que pertence a algo.
  • Alguns vão ser mais calmos e abertos a ouvir e dialogar. Outros, não. Como professora, eu precisava diariamente testar formas de conversar e me aproximar de cada um. Existem muitos profissionais preparados para esse diálogo, como terapeutas. Normalmente as pessoas se fecham porque algo fez com que elas entendessem que essa é a melhor estratégia de lidar com o mundo, ok?

O que eu tirei dessa experiência foi que é só ouvir para que você possa falar. E foi assim que consegui ver adolescentes começarem a gostar das aulas, ou começarem a se interessar por finanças, escolherem suas carreiras ou decidirem se dedicar aos seus talentos artísticos. Não é fácil, mas é assim que tem que ser feito.

Afinal, como incentivar um adolescente a ler?

Sabendo de todas as aflições da adolescência, entendendo que o diálogo (e o ouvir) é a ferramenta mais poderosa e conhecendo o Sabotador em nossos cérebros, resta a questão final: como incentivar os adolescentes a ler?

Quando mais novos…

Existem diversos infanto-juvenis que serão rápidos, divertidos e certamente abordarão temas com os quais eles irão se identificar. Quando eu lia O Diário da Princesa eu não esperava acordar princesa, mas eu com certeza me identificava com a Mia sendo uma garota estranha, preocupada com o meio ambiente e questões sociais e querendo apenas se encaixar. A série O Diário de Um Banana fez um sucesso estrondoso porque todos nas idades ao redor da pré-adolescência se identificavam com as experiências do personagem, além de os livros serem extremamente divertidos e fáceis de ler: uma ótima opção para inserir a leitura na vida dos jovens.

Quando mais velhos…

Os clássicos começam a aparecer e existe um drama forte: se eles não curtiram os livros divertidos, ou de aventura ou mistério, até então, dificilmente estarão abertos às leituras obrigatórias dos clássicos no ensino médio. Às vezes nem os que já gostam de ler estão abertos a isso. Um dia poderei fazer um artigo inteiro para o blog só sobre leituras obrigatórias, mas a grande questão é tentar fazer com que os adolescentes vejam nestes livros um pouco de si, de alguma forma. Trazer o tema da história para a realidade deles, discutir trechos do livro em comparação a suas vidas e experiências, por exemplo.

Adolescentes ler]ao o que despertar o interesse deles.

Quanto a outros livros, é uma idade que além dos juvenis com criaturas fantásticas ou de romances de ensino médio, já é possível ler outros livros mais “sérios” (justamente por isso existem as leituras obrigatórias, creio eu). Mas não precisam ser os clássicos, nem ser algo forçado. Leia perto deles e fale sobre um livro interessante, desperte o interesse com a sua paixão por aquela história. Não se esqueça de fazer escolhas boas de tema, dentro dos interesses do adolescente.

Ah, e não é só por que eles cresceram que não gostariam de explorar as prateleiras eles mesmos, ok? Podem fazer cara de que não, mas sempre vai ter alguma capa que vai chamar atenção. E se escolherem Histórias em Quadrinhos, deixe! São leituras também, nada de preconceitos!

Se você tem alguma experiência com incentivar os adolescentes a ler, compartilhe com a gente nos comentários! O tema “adolescentes e livros” é extremamente extenso, mas espero ter trazido alguma luz sobre como se comportar com eles dentro desse tema! Mande suas dúvidas, também!

Salve o pin para não esquecer das dicas!

Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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