Autoras brasileiras do século XIX que deveriam ser lembradas pela história

Autoras brasileiras do século XIX que deveriam ser lembradas pela história

Você conhece autoras brasileiras? Com certeza ouviu falar de Clarice Lispector, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles… Mas você já parou pra pensar se conhece alguma autora de antes do século XX? Talvez, como eu, deve ter pensado em autoras estrangeiras como Jane Austen ou as irmãs Brontë. Foi assim que surgiu a pergunta em mim: não temos autoras brasileiras do século XIX e antes?

Na escola, como deve ter sido com a maioria das pessoas, estudei vários homens. Mas a UNICAMP também percebeu este lapso. Há uns anos ela incluiu em sua lista de obrigatórios uma autora brasileira, a Júlia Lopes de Almeida.

Então fui fazer uma pesquisa longa, que está só no começo. Com isso, montei uma lista de autoras brasileiras apagadas dos livros – até agora! Então continue a leitura para conhecer e celebrar as mulheres brasileiras!

Teresa Margarida da Silva Orta

Teresa nasceu no Brasil e mudou-se para Portugal aos 5 anos, onde morou pelo resto da vida. Por isso, não há um consenso quanto a ela ser a “primeira autora brasileira”, mas ela é a autora do primeiro romance de língua portuguesa escrito por uma mulher! Aventuras Diófanes (1752) foi, segundo ela, escrito para ensinar a rainha a governar. Entre as suas propostas à frente de seu tempo estão: a previdência social, a abolição da escravatura, liberdade de comércio, inclusão de deficientes no mercado de trabalho, e mais. Além disso, ela falava contra a opressão das mulheres pelos homens. É possível encontrar seu livro na Amazon e no site Domínio Público.

Ana Eurídice Eufrosina de Barandas

Eu descobri a Ana graças ao Sérgio Ximenes. Ele também fez uma lista de autoras, mas juntei algumas a mais aqui. Quem foi Ana? A primeira autora brasileira de um texto de ficção. Escreveu a novela ou conto Eugênia ou a Filósofa Apaixonada (1845) e também o primeiro texto de ficção brasileiro sobre o feminismo, o Diálogos. Ela também seria a primeira cronista.

Nísia Floresta Brasileira Augusta

Nísia Floresta, uma das autoras brasileiras que devem ser lembradas.

Pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto. Nísia Floresta foi educadora, feminista, escritora e poetisa. Fundou e dirigiu colégios que ensinavam idiomas, história, artes e ciências para meninas. Além disso, defendeu os direitos da mulher, além de ideais abolicionistas e republicanos. Nísia escreveu as histórias Fany ou o Modelo das Donzelas (1847) e Daciz ou a Jovem Completa (1847). Também escreveu um romance incompleto, Dedicação de uma Amiga (1850). Ele seria em 4 volumes, mas apenas dois foram publicados. Fany está disponível em um e-book, com mais cinco obras da autora.

Nísia Floresta também escreveu obras feministas como Direito das mulheres e injustiças dos homens (1832) e Opúsculo Humanitário (1853), que você consegue encontrar no site Domínio Público.

Ana Luísa de Azevedo Castro

Era autora de folhetins e expôs a escravidão dos índios e a opressão sobre as mulheres. Publicou D. Narcisa de Villar como folhetim em 1858 no jornal A Marmota. No ano seguinte, o lançou como livro. A obra foi publicada sob o pseudônimo de Indígena do Ipiranga, e pode ser considerada indianista. Não só é a primeira autora de romance se Santa Catarina, como também lançou o gótico e o fantástico no Brasil entre as escritoras.

Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina é uma das autoras brasileiras mais incríveis de se saber a história. É considerada a primeira mulher romancista brasileira. Além disso, era negra e autora do primeiro romance antiescravista e do ponto de vista de um personagem negro. Úrsula (1859) é anterior até mesmo aos famosos Navio Negreiro (Castro Alves, 1869) e A Escrava Isaura (Bernardo Guimarães, 1875). Aliás, ela também é a primeira mulher a ser aprovada em um concurso público para professora no Maranhão.

Maria Firmina também publicou o conto A Escrava (1887) e o romance Gupeva (1861). Você pode ler estas obras e seus poemas no formato e-book, editado pela câmara.

Emília Freitas

Então temos Emília Freitas, que foi professora, escritora e poetisa nascida no Ceará. Sua obra A Rainha do Ignoto (1899) é o primeiro romance de literatura fantástica brasileiro. Pois é, uma mulher estreou o Brasil na fantasia e nós não a conhecemos. Também há o tema da mulher na sociedade patriarcal no livro. Emília cria uma sociedade secreta de mulheres liderada por uma Rainha com poderes de hipnose. Ela salva mulheres vítimas de abusos ou depressão e as leva para a Ilha do Nevoeiro, onde se tornam suas paladinas. Assim, Emília cria uma utopia onde mostra mulheres em variadas posições e que ajudam os perseguidos. Existem edições em e-book e uma edição linda da Wish, à venda no site deles.

Júlia Lopes de Almeida

Escritora, cronista, teatróloga, abolicionista, e muito mais. Júlia Lopes de Almeida já é mais lembrada pelo brasileiro, assim que A Falência (1901) entrou na lista de obrigatórios da UNICAMP. Nascida no Rio de Janeiro, Júlia escreveu de literatura infantil a romances e peças de teatro. Estreou como escritora na época em que morava em Lisboa, publicando Contos Infantis (1887) com a irmã. Então em 1888, já no Brasil, publicou Memórias de Marta em folhetins n’O País.

Além disso, Júlia foi uma das criadoras da Academia Brasileira de Letras. Estava na primeira lista dos 40 “imortais”. Mas foi excluída da lista na primeira reunião e seu marido, Filinto de Almeida, ficou em seu lugar. Por quê? Os membros queriam manter um grupo de homens, assim como na Academia Francesa. Só em 1977 uma mulher foi participar da ABL, quando Rachel de Queiroz foi eleita para a cadeira n° 5.

Carmen Dolores

Pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo. Ela foi uma das poucas escritoras brasileiras naturalistas. O livro A Luta é sua obra mais famosa. Era um folhetim no Jornal do Comércio em 1909 e então foi editado em livro em 1911. Carmen Dolores começou a escrever por gosto, mas depois escrevia por precisar de dinheiro. Produziu tanto e tão bem que em 1910, ao morrer, era a colunista mais bem paga d’O País.

Amélia de Oliveira

Conhecida como a eterna noiva de Olavo Bilac e a inspiração de grande parte da obra Via Láctea do autor. Amélia de Oliveira era poetisa, mas o público não conheceu seu talento para os versos. Era de família rica que fazia saraus com grandes artistas da época (foi lá que conheceu Olavo Bilac). Amélia tinha muitos irmãos e vários chegaram a publicar seus escritos. Então por que com Amélia foi diferente?

Amélia trocava poemas com o noivo e chegou a publicar um. Mas Bilac escreveu para a noiva e pediu que não publicasse mais nada, pois mulheres que publicavam seus textos eram mal faladas. Então, Amélia manteve seus versos para si e para o noivo. É portanto um exemplo de como tratavam a mulher na época. Amélia de Oliveira e Olavo Bilac nunca se casaram (o irmão dela proibiu), mas seguiram apaixonados até o fim de suas vidas. Ela ia visitar o túmulo de Bilac toda semana e nunca publicou nada, fiel ao pedido do noivo. Assim, seus poemas apenas foram publicados postumamente.

As autoras brasileiras biógrafas de mulheres ilustres

Josefina Álvares de Azevedo

Josefina Álvares de Azevedo foi umas jornalista, biógrafa e escritora brasileira importante para o feminismo. Criou o jornal A Família, onde divulgava seus ideais com a participação de outras mulheres ilustres. Também publicou contos e poesias, mas o jornal foi seu grande trabalho. Além disso escreveu sobre mulheres importantes para a história do mundo, como Joana D’Arc. Seu nome gerou perguntas sobre o parentesco com Álvares de Azevedo (o poeta cânone) e ela mesma explicou que ele era seu primo. Pouco se sabe da história de vida de Josefina, mas muito se tem a agradecer por sua produção e contribuição para a causa feminista.

Ignez Sabino Pinho Maia

Foi poeta, romancista, contista e biógrafa baiana. Também lutou pelos direitos das mulheres. Uma de suas maiores obras foi Mulheres Ilustres do Brasil (1899). Foi um livro com biografias de brasileiras que fizeram parte da história do país. Assim, o trabalho de pesquisa histórica de Ignez Sabino para este livro foi importante para evitar o esquecimento dessas mulheres. Sobre seu resgate destas histórias, ela diz:

“Eu quero ressuscitar, no presente, as mulheres do passado que jazem obscuras, devendo elas encher-nos de desvanecimento, por ver que bem raramente na humanidade se encontrará tanta aptidão cívica presa aos fastos da história”

Ignez Sabino Pinho Maia

Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil

Então, com o mesmo instinto de Ignez Sabino, eu busquei as histórias destas mulheres e de muitas outras. Acredito que pelo mesmo motivo Aryane Cararo e Duda Porto de Souza escreveram o livro Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil (2018). O livro passa por diversas épocas e áreas. Nele você pode conhecer a história de algumas das autoras brasileiras que citei, além de muitas outras mulheres. Elas mudaram o Brasil e fizeram parte de nossa história. Por isso, é um resgate importante da memória destas pessoas que poucos se lembram e que deveríamos apreciar pelas contribuições que fizeram.

Você conhecia alguma dessas escritoras brasileiras? Conhece outras que precisamos relembrar? Pode deixar nos comentários e assim vamos todos juntos ler as obras dessas escritoras brilhantes.

Autoras brasileiras do século XIX que você precisa conhecer
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Letícia Wilhelm

Escritora, formada em Letras e professora de língua inglesa. Gostaria de rodar o mundo e, mais ainda, criar um próprio para que outros possam visita-lo. Curte observar as pequenas coisas da vida e às vezes contá-las em histórias. Gosta de café e chocolate, de ver a chuva caindo e das tardes laranjas de outono.

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